A REVOLUÇÃO DIGITAL ESTÁ FECHANDO AS PORTAS DOS BANCOS — E O QUE ACONTECE COM O TRABALHADOR?


Bradesco encerrou 2025 com quase 300 agências a menos e mais de 1,9 mil postos de trabalho eliminados; enquanto brasileiros abraçam o celular para movimentar dinheiro, a transformação tecnológica começa a redesenhar uma profissão centenária

Durante décadas, entrar em uma agência bancária fazia parte da rotina de milhões de brasileiros. Havia filas, caixas, gerentes, documentos, talões de cheque e um funcionário praticamente para cada tipo de operação.

Hoje, boa parte dessa rotina cabe na palma da mão.

Transferências, pagamentos, empréstimos, investimentos, renegociações, abertura de contas e até atendimento ao cliente podem ser realizados pelo celular. A mudança trouxe velocidade, comodidade e redução de custos para as instituições financeiras.

Mas existe uma pergunta que começa a ganhar cada vez mais importância:

quando a tecnologia substitui uma tarefa realizada por uma pessoa, quem fica pelo caminho?

O caso do Bradesco ajuda a dimensionar o tamanho dessa transformação.

QUASE 300 AGÊNCIAS A MENOS EM APENAS UM ANO

O Bradesco terminou 2025 com 2.009 agências, contra 2.305 no final de 2024.

Isso representa uma redução de 296 agências em apenas 12 meses.

No mesmo período, a rede também perdeu 1.098 postos de atendimento e quatro unidades de negócios. O número total de funcionários da holding caiu para 82.095, uma redução de 1.927 trabalhadores em 12 meses. Entre os funcionários especificamente do banco, foram 2.092 postos eliminados.

Os números aparecem justamente em um momento em que o banco registrou um resultado financeiro expressivo.

O Bradesco fechou 2025 com lucro líquido recorrente de R$ 24,652 bilhões, crescimento de 26,1% em relação ao ano anterior.

Ou seja: o fenômeno não pode ser explicado simplesmente por uma instituição financeira em crise.

É uma mudança de modelo.

O CLIENTE MUDOU — E O BANCO ESTÁ MUDANDO JUNTO

A expansão dos canais digitais ajuda a explicar por que as estruturas físicas estão diminuindo.

Segundo a FEBRABAN, 83% das transações bancárias realizadas no Brasil em 2025 ocorreram pelos canais digitais — celular e internet banking.

Somente pelo mobile banking foram realizadas 187,5 bilhões de transações, crescimento de 169% em cinco anos.

De um total de 240,8 bilhões de transações bancárias realizadas no país em 2025, 78% foram feitas pelo celular.

A matemática é simples.

Se milhões de clientes deixaram de precisar entrar em uma agência para fazer uma transferência, pagar uma conta ou consultar o saldo, manter uma enorme estrutura física passa a ser cada vez menos necessário.

A própria pesquisa da FEBRABAN mostra, entretanto, uma nuance importante: para operações mais complexas, as agências ainda possuem relevância. Em 2024, por exemplo, houve crescimento das contratações de crédito realizadas nas agências, sinalizando que determinados clientes continuam valorizando o atendimento presencial.

Portanto, a agência não desapareceu porque deixou de ter utilidade.

Ela está sendo transformada porque o comportamento do consumidor mudou.

TECNOLOGIA NÃO ESTÁ NECESSARIAMENTE GERANDO MAIS DESEMPREGO NO BRASIL

Aqui está uma diferença fundamental.

Seria errado dizer que a digitalização dos bancos provocou aumento do desemprego brasileiro.

Os dados do IBGE mostram justamente o contrário.

Em 2025, a taxa anual de desocupação do Brasil caiu para 5,6%, o menor nível da série histórica iniciada em 2012.

A população ocupada chegou a aproximadamente 103 milhões de pessoas, também recorde da série histórica.

No trimestre encerrado em abril de 2026, a taxa de desemprego estava em 5,8%, abaixo dos 6,6% registrados no mesmo período de 2025.

Portanto, não há evidência nos dados nacionais de que a tecnologia esteja produzindo uma explosão geral do desemprego.

O que existe é algo mais específico e talvez mais profundo:

determinadas profissões estão perdendo espaço enquanto outras estão surgindo.

E o setor bancário é um dos exemplos mais claros dessa transição.

NO SETOR BANCÁRIO, A HISTÓRIA É OUTRA

De acordo com levantamento do DIEESE baseado nos dados do Novo CAGED, o setor bancário brasileiro terminou 2025 com saldo negativo de 8.910 postos de trabalho.

Enquanto o mercado formal brasileiro criou aproximadamente 1,28 milhão de empregos no ano, o setor bancário caminhou na direção oposta.

Considerando os bancos múltiplos com carteira comercial — categoria na qual estão grandes bancos privados como Bradesco, Itaú e Santander — foram eliminados 9.138 postos de trabalho em 2025.

É uma diferença que chama atenção.

O Brasil estava criando empregos, enquanto o setor bancário reduzia sua força de trabalho.

E NÃO É UMA TRANSFORMAÇÃO QUE COMEÇOU AGORA

A redução da estrutura bancária física já acontece há mais de uma década.

Estudo do DIEESE apontou que, entre 2013 e 2019, os bancos fecharam mais de 3 mil agências no país e eliminaram mais de 70 mil postos de trabalho.

O próprio estudo relacionava a reestruturação à expansão dos canais digitais, automação, inteligência artificial, Big Data e outras tecnologias.

A pandemia acelerou ainda mais esse processo.

Milhões de pessoas que antes tinham resistência ao aplicativo bancário foram obrigadas a aprender a utilizar serviços digitais.

Depois que descobriram a praticidade, muitos simplesmente não voltaram à agência.

MAS EXISTE UM OUTRO LADO DA HISTÓRIA

A tecnologia trouxe ganhos evidentes.

Um cliente pode realizar uma operação bancária às 23h, sem pegar trânsito, sem enfrentar fila e sem depender do horário comercial.

Para quem possui familiaridade com smartphones, é uma revolução.

Mas o Brasil não é formado apenas por usuários altamente conectados.

Existe uma parcela da população que possui dificuldade com tecnologia, limitações de acesso à internet, baixa alfabetização digital ou simplesmente prefere conversar com uma pessoa antes de tomar uma decisão financeira importante.

Para essas pessoas, o fechamento de uma agência pode representar muito mais do que a retirada de um prédio.

Pode significar a perda de acesso fácil ao sistema financeiro.

QUANDO A TECNOLOGIA DEIXA DE SER FERRAMENTA E VIRA BARREIRA?

Essa talvez seja a questão mais importante dessa transformação.

A tecnologia deveria facilitar a vida das pessoas.

Mas, quando o sistema passa a pressupor que todo cidadão possui smartphone moderno, internet disponível, conhecimento digital e autonomia para resolver qualquer problema sozinho, aquilo que foi criado para facilitar pode começar a excluir.

Imagine uma pessoa idosa tentando solucionar um problema bancário complexo exclusivamente por um aplicativo.

Ou alguém que perdeu o celular e precisa recuperar o acesso à conta.

Ou ainda um cliente que deseja negociar uma dívida e prefere explicar sua situação pessoalmente.

Nessas situações, uma tela pode não substituir completamente uma pessoa.

A própria pesquisa da FEBRABAN reconhece que determinadas operações complexas ainda apresentam demanda pelo atendimento presencial.

O TRABALHADOR TAMBÉM ESTÁ SENDO TRANSFORMADO

A grande mudança talvez não seja simplesmente a substituição do funcionário por um aplicativo.

É a transformação do tipo de trabalhador que o banco precisa.

Caixas e funções predominantemente operacionais tendem a perder espaço.

Ao mesmo tempo, crescem as necessidades de profissionais ligados à tecnologia, análise de dados, segurança digital, inteligência artificial, desenvolvimento de sistemas e operações digitais.

O DIEESE aponta justamente essa transformação: a redução do emprego tipicamente bancário ocorre simultaneamente ao crescimento de profissionais ligados à tecnologia dentro do sistema financeiro.

Em outras palavras:

a tecnologia não necessariamente elimina todo o trabalho. Ela elimina determinadas tarefas e cria outras.

O problema é que o trabalhador que perde a antiga função nem sempre possui imediatamente as habilidades necessárias para ocupar a nova.

É aí que aparece um dos maiores desafios da chamada revolução digital.

O PREÇO DA EFICIÊNCIA

Para os bancos, digitalizar significa reduzir custos, aumentar produtividade e permitir que milhões de operações sejam realizadas automaticamente.

Para o consumidor, significa conveniência.

Para o trabalhador, porém, significa uma necessidade permanente de adaptação.

E existe uma pergunta que vai muito além do Bradesco:

quem será responsável pela requalificação profissional de quem for substituído pela tecnologia?

Se uma máquina, um algoritmo ou uma inteligência artificial consegue realizar uma tarefa antes executada por cinco pessoas, a empresa economiza.

Mas a sociedade precisa descobrir como transformar essas cinco pessoas em profissionais capazes de ocupar as novas funções que surgem.

Caso contrário, o ganho de produtividade pode vir acompanhado de uma concentração cada vez maior de renda e oportunidades.

O BRADESCO É UM EXEMPLO DE UM MOVIMENTO MUITO MAIOR

O Bradesco não está sozinho.

A redução das redes físicas ocorre em praticamente todo o sistema financeiro.

Os grandes bancos estão investindo em aplicativos, inteligência artificial, automação, atendimento remoto e estruturas menores.

Em 2025, segundo levantamento baseado no CAGED analisado pelo DIEESE, o setor bancário perdeu 8.910 postos de trabalho mesmo diante da criação de mais de 1,2 milhão de empregos formais no país.

É difícil ignorar a coincidência entre essa transformação e o avanço dos canais digitais.

Mas também seria simplista colocar toda redução de empregos exclusivamente na conta da tecnologia.

Decisões de gestão, redução de custos, reorganização das empresas, mudanças econômicas, terceirização e novas estratégias comerciais também fazem parte dessa equação.

A TECNOLOGIA É INIMIGA OU ALIADA?

Provavelmente, nenhuma das duas coisas.

A tecnologia é uma ferramenta.

O problema está na maneira como ela é utilizada.

Um aplicativo que permite pagar uma conta em segundos é uma evolução.

Um aplicativo que obriga uma pessoa vulnerável a resolver sozinha um problema que ela não consegue compreender pode se transformar em uma barreira.

Uma agência menor, com profissionais especializados, pode ser mais eficiente.

Uma cidade inteira sem atendimento presencial pode deixar uma parcela da população desassistida.

A verdadeira discussão, portanto, não deveria ser “tecnologia contra trabalhador”.

Deveria ser:

como utilizar a tecnologia para aumentar a produtividade sem transformar milhões de trabalhadores e consumidores em descartáveis?

UMA REVOLUÇÃO QUE AINDA ESTÁ NO COMEÇO

O fechamento de 296 agências do Bradesco em 2025 é apenas um retrato de uma transformação muito maior.

O celular já virou banco.

A inteligência artificial começa a virar atendente.

Algoritmos já analisam crédito.

Sistemas automatizam investimentos.

Chatbots respondem clientes.

E cada vez mais operações que exigiam um funcionário são realizadas por uma máquina.

A grande questão para os próximos anos não será se os bancos continuarão se digitalizando.

Eles continuarão.

A questão será quantos empregos tradicionais desaparecerão, quantos novos serão criados e, principalmente, se os trabalhadores terão oportunidade real de fazer a transição para esse novo mercado.

Porque a evolução tecnológica é inevitável.

O que não deveria ser inevitável é deixar pessoas para trás.

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ATNEWS MG | A PERGUNTA QUE FICA

O Brasil está diante de uma contradição histórica.

Nunca tivemos tanta tecnologia disponível para facilitar a vida.

Nunca tivemos tantos serviços que podem ser realizados sem sair de casa.

E, ao mesmo tempo, profissões inteiras estão sendo redesenhadas.

O desafio não é impedir a evolução.

É garantir que a evolução também seja humana.

Porque fechar uma agência pode significar eficiência para uma empresa.

Mas, para quem trabalhava nela ou para quem dependia daquele atendimento, pode significar o começo de uma nova realidade.

A tecnologia veio para substituir pessoas ou para libertá-las de tarefas repetitivas?

A resposta dependerá das escolhas que empresas, governos e a própria sociedade fizerem nos próximos anos.

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